sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

- fim -

tal como a brasa e o lume se extinguem,
também as letras, por mais ígneas, se apagam um dia.
assim, como lava, se petrificam versos
deixados à erosão, do mar, do vento e do vasto tempo.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

- 2012 -

acendes o televisor, apagas o coração.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

versus

anoiteço quando o sol nasce e
vejo-me ao espelho em vidros foscos.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

entra

a chave da minha casa é a poesia
e pode entrar quem a trouxer consigo.

domingo, 29 de janeiro de 2012

- subvivo -

quem não vive não morre.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

- sem título -

o sangue corre-me espesso,
como lava viscosa,
pelas artérias e veias,
mas frio e de natureza venenosa.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

- sem título -

inspiro,
e formam-se palavras como um murmúrio
das ondas do mar.
expiro,
e soltam-se como um vento,
um sopro no ar.

absolutamente necessárias palavras.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

curva

a vida, como a terra, também é curva.
por isso é que não podemos ver o futuro.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

- sem título -

fosse a sombra o meu caminho e nunca me perderia.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

- sem título -

a metade do caminho é o ponto de não retorno dos lúcidos.
então e o meu?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

impressionante

como a pele se pega a outra pele.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

guerra de classes

vibram-me as cordas vocais e os pulmões,
com um clamor, como um tambor,
de alegria, de dor,
de raiva, despudor,
vibram-me as sinapses,
os gritos, os punhos cerrados,
e os olhos raiados,
na luta, até à vitória,
vibrem átomos, morram quimeras,
na luta, até ao fim de todas as guerras,
feita de muitas batalhas em todas as terras.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

navegação

será o vento a trazer-me o teu nome
nos dias de esquecimento.
será o teu nome a lembrar-me de quem sou
nas noites sem estrelas.

da poesia

os poemas são as nossas dores escritas em letras.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Lisboa

um barco no tejo,
um abraço,
um beijo,
ao longe uma ponte sobre os telhados
inúmeros, antigos, confusos.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

- sem título -

por que é que as palavras não se respiram?
inspirar
expirar
até à última.

domingo, 4 de dezembro de 2011

- sem título -

as pontas dos meus dedos suaves
sobre a pele das tuas ancas
e o meu sussurro atrás do teu corpo nu,
sopra-te no ouvido a palavra absolutamente
necessária.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

ausência

a mensagem do silêncio é a totalidade.

- sem título -

enchi o peito com o fumo na mesa do café, quando ainda se podia fumar nos cafés, e olhei para uma outra mesa.

sobre a mesa um cinzeiro vazio, uma bolsa de mulher e um café. ela estava, com os cabelos louros, olhando na direcção da porta como se esperasse alguém.

a minha chávena estava já quase fria, depois de sorvido o líquido negro e quente e os meus olhos, fingindo-se atentos às pequenas letras do jornal, já nada faziam senão cairem para aquela singularidade que, impossivelmente, estava sentada uma ou duas mesas ao lado da minha. estranhos acasos nos reserva a vida, colocar-nos ali, um mendigo e uma rainha separados por uma mesa de café.

quando ela levantou os olhos, jurei que tinha sido para mim. um sorriso abriu-se nos lábios e fê-la mais radiante, com uma pequena ruga no canto do olho, daquelas que aparecem quando os sorrisos são sinceros.

então, nervoso, inspirei o último travo do fumo, pensei levantar-me. as pernas reagiram. antes disso, quando me tirava da cadeira, passou por mim quem acabara de entrar e sentou-se com ela.

ainda assim, ainda que por breves momentos, por dentro, exaltei-me enganado, pensando que era um sorriso para mim. como enganado está quase sempre quem se exalta.

domingo, 27 de novembro de 2011

- sem título -

todo o passado é o que nos enche, mesmo o que nos deixa vazios.